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O peso do coração - Dr. Otávio Mangili




Dr. Otávio Mangili, médico cardiologista

Você já ouviu falar da deusa Maat? Conta a história do Egito antigo que quando um indivíduo morria, ele se apresentava diante de Maat. Na religião egípcia, Maat é a deusa da verdade, da justiça e da ordem. Ela é representada como uma jovem mulher ostentando uma pluma de avestruz na cabeça, a qual era pesada contra o coração do morto no julgamento de Osíris.

Em outras palavras, se o coração do indivíduo pesasse mais que a pluma ou pena de Maat, ele era considerado impuro. Neste caso, as interpretações variam um pouco, mas o entendimento mais comum é que se voltava para uma nova existência e nova oportunidade de ter um coração mais leve que a pena. Se o coração do postulante tivesse um peso menor que uma pluma, a ele era franqueado o ingresso no Paraíso. Mais leve que uma pluma... já pensou nisso?

Embora eu seja Cristão, gosto de admirar e estudar os princípios universais que regem a maioria das experiências religiosas. Existem Verdades que são imutáveis e atemporais. Agora, voltemos a pensar no peso do coração. Quando li isso, achei perfeito e pensei em escrever sobre esse assunto. Imaginei quanto será que meu coração, ou minha alma, como queiram, pesa? Será que se me encontrasse com Maat hoje, ele seria mais leve que sua pena?

Confesso que fiquei apreensivo com essa ideia... Sem entrar mais profundamente na idéia de pecado, que mudaria o foco da discussão, imagine quantos ressentimentos de pessoas que nos magoaram ou fizeram mal guardamos, quantos desejos não realizados, arrependimentos do que fizemos e do que deixamos de fazer. Imagine ainda quanta coisa gostaríamos de ter dito às pessoas que amamos e ficou por dizer. Tudo isso pesa no coração. E, se pesa no coração, nos adoece também! Já escrevemos diversas vezes sobre o valor do perdão, perdoar a si mesmo, aos outros e à vida.

Os efeitos danosos de não perdoar, ou seja, de guardar mágoa de pessoas, de acontecimentos ruins na nossa vida ou até mesmo de nossos próprios erros são inúmeros. A mágoa interfere nos sistemas hormonal e imunológico.Pessoas magoadas disparam no corpo uma reação chamada reflexo de fuga-ou-luta, que aumenta a quantidade de adrenalina e de cortisol (o hormônio do estresse). Isso leva a aumento de pressão arterial, de frequência cardíaca e do risco de morrer do coração. O excesso de cortisol, cronicamente, também pode levar a diabetes e aumenta obesidade (sim, amargura leva a aumento de peso, acredite!). Além disso, no longo prazo isso leva a alterações no sistema imune, aumenta risco de doenças reumatológicas e até de certos tipos de câncer.

Um estudo de 2011 do Journal of Behavioral Medicine mostrou que pessoas que praticam perdão incondicional tem menor propensão a morrer mais cedo do que indivíduos que não perdoam ou que precisam que o ofensor peça desculpas ou prometa não cometer mais o erro. Se a mágoa ativa a produção de adrenalina na circulação, o perdão, por outro lado, diminui sua atividade e, por consequência, a pressão arterial. O perdão também esteve relacionado, em diversos estudos, com melhora de qualidade do sono, da disposição física e diminuição de risco de depressão.

A gratidão, assunto recorrente por aqui, também é uma ferramenta indispensável para deixar o coração mais leve e anda de mãos dados com o perdão.  A ciência tem descoberto recentemente que o simples ato de agradecer pode mudar em muito a nossa saúde física e emocional. Ela tem sido relacionada a diminuição de agressividade, melhora de ansiedade e depressão, maior qualidade do sono e também dos relacionamentos afetivos. A Gratidão melhora nossa auto-estima e aumenta nosso equilíbrio mental.

Ai fica mais uma proposta, ter um coração mais leve que a pluma de Maat.

www.otaviomangili.com.br

Dr. Otávio Celeste Mangili - CRM: 19284-PR / RQE: 14354 
Possui graduação em Medicina pela Universidade Estadual de Londrina (2001). Residência Médica nas especialidades de Clínica Médica pela Universidade Estadual de Londrina (2002-2004) e Cardiologia pelo Instituto do Coração da Faculdade de Medicina da USP (2004-2006). Foi médico pesquisador da Unidade Clínica de Dislipidemia do Instituto do Coração (InCor/HCFMUSP) (2006-2012). Doutor em Ciências pela Faculdade de Medicina da USP, programa Cardiologia no ano de 2012. Médico Pesquisador do Parana Medical Research Center.




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